8 :: S I L Ê N C I O
Ele costumava se sentir culpado por não dar atenção às suas namoradas do passado. Não gostava de ser cobrado, nem de atender a telefonemas delas no meio do dia, nem de dar satisfação sobre o que fez ou deixou de fazer. Era uma pedra longínqua e amava o amor dos distantes, dos maridos que viajam muito, dos músicos e jogadores de futebol, mas quando tinha a companheira por perto era como se o resto do mundo fosse o elenco de apoio do filme mais romântico do mundo.
Com o tempo, entendeu que era melhor ficar sozinho, sem vínculos com as eventuais amigas que preenchiam as noites de sexta-feira. Suas relações eram cada vez mais frívolas e rasas, e a cada orgasmo atingido a vontade era de ejetar a parceira do quarto, até que um dia cansou. Penou até conhecer Ana, em quem depositou toda a esperança de construir uma relação equilibrada e sadia. Ele esperava que Ana ligasse, que ela cobrasse, que fizesse juras de amor eterno pra que ele as pudesse responder à altura, mas Ana nada fazia. Ana calava-se, recluia-se, apassivava-se. Ana tinha um amplo repertório de palavras, mas as escolhia tão bem, que fazia do seu discurso mais sintético que analítico, quase monossilábico.
Ele perguntava pra Ana sentimentalidades, sobre as quais detestava ser arguído antes e se tornu uma pessoa mais aberta do que nunca pensara em ser. Essa situação era incômoda e instigante, e deixava nele uma insegurança e um inventário de dúvidas que alguns estudantes da psicanálise batizaram um dia dos enigmas femininos. Foi assim que Ana, a silenciosa, transformou um homem que se incomodava com presenças em um que se desesperava com ausências.
Marcelo Gluz, 7 de dezembro de 2001, às 18:37
Ele costumava se sentir culpado por não dar atenção às suas namoradas do passado. Não gostava de ser cobrado, nem de atender a telefonemas delas no meio do dia, nem de dar satisfação sobre o que fez ou deixou de fazer. Era uma pedra longínqua e amava o amor dos distantes, dos maridos que viajam muito, dos músicos e jogadores de futebol, mas quando tinha a companheira por perto era como se o resto do mundo fosse o elenco de apoio do filme mais romântico do mundo.
Com o tempo, entendeu que era melhor ficar sozinho, sem vínculos com as eventuais amigas que preenchiam as noites de sexta-feira. Suas relações eram cada vez mais frívolas e rasas, e a cada orgasmo atingido a vontade era de ejetar a parceira do quarto, até que um dia cansou. Penou até conhecer Ana, em quem depositou toda a esperança de construir uma relação equilibrada e sadia. Ele esperava que Ana ligasse, que ela cobrasse, que fizesse juras de amor eterno pra que ele as pudesse responder à altura, mas Ana nada fazia. Ana calava-se, recluia-se, apassivava-se. Ana tinha um amplo repertório de palavras, mas as escolhia tão bem, que fazia do seu discurso mais sintético que analítico, quase monossilábico.
Ele perguntava pra Ana sentimentalidades, sobre as quais detestava ser arguído antes e se tornu uma pessoa mais aberta do que nunca pensara em ser. Essa situação era incômoda e instigante, e deixava nele uma insegurança e um inventário de dúvidas que alguns estudantes da psicanálise batizaram um dia dos enigmas femininos. Foi assim que Ana, a silenciosa, transformou um homem que se incomodava com presenças em um que se desesperava com ausências.
Marcelo Gluz, 7 de dezembro de 2001, às 18:37
